COQUETEL DO DIA SEGUINTE 2
Enviado em 4 de Outubro de 2008
Publicado por Alvaro | Enviar por e-mail
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Essa é uma discussão que, no campo atual de pesquisas, tem ganhado terreno importante, pois todas as possibilidades de prevenção ao HIV devem ser pesquisadas e testadas ja que todas têm o mesmo objetivo que é estancar a epidemia de aids no mundo. Antes de entrar na questão propriamente do coquetel como forma de prevenção, é preciso pensar que 1) Não existe apenas um tipo de virus HIV. O sub-tipo predominante na África, por exemplo, não é o mesmo subtipo que predomina nas Américas e, sendo assim, o tipo de coquetel de medicamentos para cada subtipo deve ser diferente. 2) Outra coisa é o contexto das praticas sexuais. É muito dificil e perigoso pensarmos que todas as pessoas praticam sexo em contextos semelhantes. A maioria de nós, estudou, foi a escola, tem uma famila (ou pessoas que tenham esse papel), temos determinados objetivos e determinadas praticas, mais ou menos comuns…Mas existem pessoas que tiveram historias de vida muito diferentes das nossas, não tiveram acesso a educação como nós e não tiveram acesso a outras coisas e, por isso, muitas vezes estão em maior vulnerabilidade para aquisição do virus HIV. Sendo assim, para algumas pessoas, a negociação do preservativo ainda é um desafio no contexto em que elas vivem, de modo que, talvez para esses grupos, a camisinha nem sempre é a melhor solução de prevenção. É por este motivo que as pesquisas avançam em todas as direções.
Hoje existem no mundo um vasto campo de pesquisa de “Estratégias de Prevenção Biomédicas”. O que é isso? São estratégias de prevenção que buscam impedir a infecção pelo HIV de forma bio-fisico-quimica, criando condições desfavoráveis para que o virus penetre no corpo da pessoa, e não depende do comportamento dela (não depende se ela usaria ou não camisinha, por exemplo).
Dentre as estratégias biomédicas estão a pesquisa de vacinas (existe a pesquisa de vacina preventiva - que previne a infecção e a vacina terapeutica - que combate o virus hiv, depois que ele ja entrou no corpo da pessoa), as pesquisas de microbicidas (substâncias que podem aumentar a resistência das mucosas/tecidos do corpo) dificultando a entrada do virus, as pesquisas de circuncisão (estudos realizados na Africa, mostraram que homens heterossexuais circuncidados - que fizeram aquela cirurgia para a retirada do prepúcio, aquela pele que recobre a glande/cabeça do pênis - tiveram menos chance de infecção ou se infectaram menos do que homens que não foram circuncidados) e finalmente, o uso do coquetel de medicamentos para o tratamento, com forma de prevenção.
Essa estratégia, que o texto da materia postada pela Maryellen chama de coquetel do dia seguinte, tem causado muito debate pois, por um lado, já tem sido utilizada como estratégia para profissionais de saúde que sofrem algum tipo de acidente de trabalho quando estão cuidando/tratando de pessoas soropositvas ou com aids. Em todo o Brasil, quando o médico(a)/enfermeiro(a)/Outro(a) fura ou corta a sua propria pele durante um procedimento em que a chance de infecção pelo HIV é grande, imediatamente é feita a administração de um ou dois medicamentos que compoem o coquetel de tratamento de pessoas hiv positivas. (depois eu passo os nome dos medicamentos, não tenho aqui agora). Esses profissionais de saude são observados durante 6 meses a 1 ano e fazem testagem para o hiv com frequencia, além de tomarem o coquetel durante o tempo de observação, para ter certeza que o acidente que tiveram não os infectou. Parece ser uma solução ótima, mas ela é bastante polêmica por que, principalmente:
a) primeiro pelo lado da saude publica…se ja é dificil garantir o uso do preservativo pela população de forma consistente, com esta opção de tomar os medicamentos, não se sabe quais os efeitos comportamentais que possam ocorrer, o que certamente, redirecionaria os rumos da epidemia, para direções que ninguém sabe quais são e ninguém sabe quais seriam as consequencias (que poderiam ser bastante devastadoras).
b) depois tem a questão da propria pessoa, do organismo dela. ja se sabe, pelas pesquisas de medicamentos, que ao longo do tempo, o corpo cria resistência a ação dos medicamentos. Isso ocorre por que o corpo se adapta a ação dos medicamentos e de tempos em tempos, pessoas que fazem uso corrente do coquetel tem que sempre reavaliar o seu esquema de medicação. Numa pessoa soronegativa (que não tem o virus) que começa a utilizar o coquetel como forma de prevenção (ou como “coquetel do dia seguinte”) pode ocorrer a mesma adaptação do corpo, criando resistência aos medicamentos. E isso é super perigoso por que se, no futuro, essa pessoa se infectar de verdade, seu corpo estará resistente aos medicamentos e o tratamento será mais dificil e arriscado para essa pessoa.
c) tem também a questão de qual é o melhor esquema de medicamentos adequado para cada subtipo de virus do hiv…Essa pratica de tomar o coquetel em caso de acidente profssional em procedimentos de saúde é comum no Brasil, mas não é uma conduta mundial, pois não se sabe como cada tipo de virus hiv vai se comportar para essa estratégia.
d) e por ultimo, como disse a materia original, não existem estudos/pesquisas que comprovem a total eficacia e o mecanismo de ação dessa estratégia…Então por que os profissionais de saúde a utilizam? Essa forma começou a ocorrer de forma empírica e mostrou que as pessoas que a utilizavam não soro-convertiam (ou, não se infectavam, não se tornavam soropositiva). Mas não existem nenhum estudo que comprove cientificamente, por exemplo, qual a dose adequada, quanto tempo hábil a pessoa tem para tomar o coquetel depois de um acidente, que pessoas não deveriam tomar o coquetel por estarem em tratamento com outros medicamentos - como diabéticos, pessoas com pressão alta, cardíacos, e outros -, e qual a eficacia real…o que se sabe é que na maioria dos casos, entre profissionais de saúde no Brasil, a estratégia tem impedido a soroconversão…mas e no mundo real, fora dos hospitais, dos centros de saúde? E em outros locais do mundo ode o virus é diferente do tipo que prevalece no Btasil? E nas periferias, nas favelas, nos prostibulos, nas vielas e becos, saunas, boites, festas e etc, onde as pessoas tem feito sexo (e compatilhado seringas) de todas as formas?
Nada disso se sabe de verdade, só se tem DADOS EMPIRICOS, ou seja, informações que derivam da experiência pratica, apenas.
Mas e ai, o que se faz?
Hoje, no campo de pesquisa de alternativas a infecção pelo HIV, as discussões sobre as estratégias biomédicas estão bastante aquecidas. Varias instituições defendem que é urgente a realização de novos estudos que avancem na investigaaçõ da eficacia e segurnaça dessas estratégias biomédicas (vacinas, microbicias, circuncisão e administração de coqueteis como prevenção), pois quanto mais estratégias de combate do avanço da epidemia existirem, melhor será para todo mundo. Mas tb existem muitas questões eticas que tem sido debatidas para assegurar que as pessoas envolvidas nesses estudos tenham sua saúde e integridade garantidas. O consenso é que é necessário e urgente termos mais opçoes de prevenção além do preservativo.
Quem quiser se aprofundar nessas questões, convido a, a partir da proxima segunda dia 06 de outubro, visitar o site da Unidade de Pesquisas Clinicas de São Paulo (onde trabaho, alem da Reprolatina) para acompanhar os avanços dessas pesquisas e dessas discussões. No site, temos disponibilizado todas as edições do Boletim “Reporter Vacinas” publicado bimestralmente pela Unidade. Esse boletim traz as ultimas informações no campo de pesquisas de estratégias biomédicas de prevenção ao hiv. Tem no site tb, o link para o VAX que é um outro boletim editado por uma instituição internacional, chamada IAVI (International Advocacy Vaccine Initiative) que advoga (faz advocacy) por maiores investimentos para essas pesquisas no mundo todo. Estaremos continuamente colocando no site, mais informações sobre as pesquisas. Anotem ai o endereço (que é provisório, mas logo será definitivo, e mais curto):
http://www.vacinashiv.unifesp.br/2008/index.htm
Ah, aproveito pra dizer que fui eu quem fiz…hehehehe (aproveitar pra fazr propaganda, né?)
Espero que essa explicação tenha ajudado para esclarecer ao grupo e trazer mais subsidio para a discussão do tema. Se precisarem de outras informações, pode perguntar pelo email vacinas@crt.saude.sp.gov.br